Memória Pirata

Todos os dias, depois do almoço até a hora do café da tarde, Dona Madalena contava a mesma história para Seu Rodrigo. O casal se sentava na varanda, que dava para um lindo jardim extremamente florido e muito bem cuidado, com borboletas, que pareciam permanentes naquele cenário, e enquanto Seu Rodrigo balançava na cadeira, Dona Madalena mexia nos fios de cabelos brancos que ainda insistiam em permanecer em sua cabeça. Mastigava a saliva e começava:
- É, Rodrigo, a gente viveu uma linda história, você não acha? – Ele a olhava todos os dias com o mesmo olhar de incerteza, com a mesma expressão blasé, quase como se não a enxergasse tão completa, como se visse uma desconhecida. – Além das nossas aventuras sexuais, da gravidez antecipada, daquela paixão de espírito adolescente que vivíamos, você e eu vivemos uma história de amor de verdade. Brigávamos todos os dias só pra transa ficar mais gostosa. Lembra como você cuidou de mim quando quase morri de pneumonia? – Madalena olhava para as borboletas do jardim num silêncio quase constrangedor, como se quisesse ter a força da juventude pra dançar entre as flores enquanto Seu Rodrigo a observasse. E Seu Rodrigo quase se perpetuava no silêncio, que pra ele era confortável. – Além disso, você lembra o quanto você se saiu bem na sua vida? Lembra do seu primeiro livro?
- Livro, que livro? – Finalmente se pronunciou o velho.
- Ora, por favor, você sempre amou escrever – Seu Rodrigo pigarreou, olhou pro lado e respondeu.
- É verdade! Escrever foi a minha maior paixão nessa vida. – Seus olhos dessa vez brilharam.
-Sim, vendeu mais de cinquenta mil exemplares. Você foi convidado por diversos meios de comunicação para escrever textos... Não me esqueço da festa de aposentadoria que te fizeram. Mas, a coisa mais linda que fica na minha memória é... – Ela se levantou como se estivesse animada, pois, com a idade que tinha nunca se sabia quando estava animada ou ofegante, depois foi em direção a parte de dentro da casa enquanto prosseguiu dizendo – Espere um momento, vou pegar uma coisa. – Voltou no mesmo ânimo, aquele que num da pra saber se é animação ou fadiga, por conta da idade. Ergueu um troféu no formato de livro e disse: - Olha, o dia que você ganhou isso não sai mais da minha memória, o prêmio de melhor livro. – Dona Madalena aproximou-o de Seu Rodrigo e o mostrou bem de perto, passando o indicador rapidamente sobre o nome gravado no troféu: Rodrigo Rabelo Reno Roma do Rego. Seu Rodrigo encheu os olhos d’água e olhou para o lado como se engolisse o choro e engoliu, nenhuma lágrima escorreu, ficaram nos olhos, parecia que era brilho da catarata, mas era emoção oprimida. Então, depois de respirar fundo ele disse:
- Como a vida passa rápido, Madalena! Nem consigo sentir mais a emoção daquele momento, sinto apenas algo parecido com orgulho.
- E isso já não é o bastante?
- Claro que é, deixei o meu nome, ao menos tenho um legado nessa terra! – Dona Madalena evitou tocá-lo, talvez, fosse uma velha preconceituosa até mesmo com os seus.
- Vamos, Rodrigo, hora do café! Acho que ainda tem bolo de cenoura.
Rodrigo se levantou com dificuldade e entrou para o interior da casa. Dona Madalena cruzou os braços, ouviu os pássaros e foi abordada por uma moça linda, que vestia branco:
- Acho linda a forma com que trata o Seu Rodrigo, Dona Madalena. Mas, num sei se é bom pra ele o que senhora faz todos os dias.
- Ele é meu amigo desde o berço, num casou, num teve filhos. Xará do meu falecido marido, mas nunca teve a mesma sorte, coitado. Passou toda uma vida embriagado pelas ruas do Rio, pedindo até esmola, e frustrado por não se consagrar como escritor, aliás, por nem ter lançado um livro. Merece agora, que não se lembra de nada, conhecer uma história nova e boa de sua vida, ter uma memória que valha a pena ser revivida.
A mocinha riu com vontade de chorar e pensou: - Ai, quando eu ficar velha não quero usar roupas floridas como as da Dona Madalena. - E a velha entrou para tomar café com o Seu Rodrigo, pois pelo resto do dia, o velho se colocaria a escrever coisas que provavelmente jamais seriam publicadas. Enquanto se lembrava do quanto fora feliz...