Arlete e Eu.

Com uma fragilidade de dar dó gritava desesperada ao me ver, entre as grades cortava o meu coração. Seu piado tristonho, seus olhos um pouco perdidos. Ah, Arlete! Ela precisava de sol. Isso mesmo. No sol a Arlete se arrumou, ajeitou suas penas, me olhou nos olhos, deixou de piar e se demonstrou feliz. Antes mesmo que eu pedisse para vir até mim, aquela linda se jogou em meu dedo e lá ficou. Na confiança, virou sua cabecinha pra traz e relaxou tranquilamente.
Agora, sempre que chego perto ela sobe em mim, sempre que ando com ela pela casa, ela faz um som de satisfeita e com isso, a única coisa que consigo pensar é no quanto estou amando um animal ao ponto de me arrepender em tê-lo adotado, ao ponto de pensar no quanto ela estaria com muito mais brilho nos olhos, muito mais brilho nas penas e muito mais alegria em seu cantar caso estivesse no céu, no mato, na chuva ou numa casinha de sapê.
Se não fosse eu, Arlete estaria com qualquer outro, com outro nome, claro! Mas, acontece que sou eu. Sou eu olhando os olhos brilhantes ao sol, sou eu olhando a alegria em estar ao sol, sou eu sabendo que ela está num viveiro (o qual deveria se chamar morteiro) durante todo um dia, apenas comendo e pensando em como a vida poderia ser melhor. Me dói! Me dói porque se parece comigo, quando estou vivendo meu cotidiano, trabalhando, indo aos mesmo lugares sempre, fazendo as mesmas coisas e comendo e bebendo.