Mulher Zumbi

Na unha do dedão, o esmalte estava descascado, mal dava pra saber qual era a cor real das remanescências daquele esmalte. Com os olhos fixos na TV, não assistia a nada. A luz clareava o seu rosto e tornava o entorno um breu. A pele pálida e os cabelos desgrenhados colados no rosto molhado. Ela estava morta!
O coração ainda batia, ainda respirava profundamente, o cérebro ainda funcionava com saúde, ela sentia a água, que acabara de jogar no rosto, acariciar sua pele e respingar no queixo, sentia uma dor suportável ao arrancar com a unha uma pele morta no dedão... mas, não tinha mais jeito, morrera quando deixou a vontade de existir.
Deixou de existir, talvez! Deixou de existir, porque já não sentia emoções. A vida se tornou um ir e vir, apenas. O beijo no encontro da noite passada foi idêntico aos beijos dos cinco encontros anteriores - isso mesmo! Já era mais de seis encontros frustrantes em um ano - o beijo, pra quem se interessa em saber, não tinha sabor, não era nem seco, nem molhado. O beijo era técnico. Ela era atriz de um seriado com baixo orçamento. Talvez, um seriado em que um zumbi era destruido por homens que ainda viviam, homens que sentiam desejos, raiva, amor (Eros) e ódio. Destruida! Apenas sua alma sentia, o amor (Ágape). O corpo, agora, era só um boneco de marionete: sem desejos, sem raiva, sem amor (Eros) e sem ódio... 
Cortada pela luz da TV, olhou a unha do dedão de esmalte descascando. Fez com a mão como a Lady Gaga faz em seu sinal e percebeu que podia gravar Thriller do Micheal, se tivesse nascido alguns anos antes. Nisso, gargalhou. Estava morta! Mas, amava sua própria companhia no sepulcro que criara!