Nos porões de um castelo de areia



Eu considerei o último ano solitário. Os últimos vinte meses foram de perdas! Grandes perdas. Perdas que eu sufoquei com o travesseiro à noite, como se sufoca os bebês nos filmes de horror. Eu as escondi num porão úmido, enterradas com cautela e precisão, para que fossem esquecidas, para que eu não tivesse de manter um período de luto, para que as pessoas nem as percebessem. Como se eu tivesse de provar às pessoas de que eu não perdi nada!
Eu perdi. Fui perdendo o controle e fingindo estar tudo bem. Mantendo um otimismo ridículo, sendo entusiasta e fazendo piada com tudo que a minha volta desmoronava. Afinal, ninguém precisava saber o que eu estava perdendo. E com tudo desmoronado, ao porão, me deparei com as covas das perdas que eu tentei me livrar. O abalo que as estruturas causaram durante o desmoronamento, como não poderia deixar de ser, moveu as terras e as covas do lugar... Um braço daquela tarde-de-domingo escapava por uma greta da cova. Um crânio do almoço-em-família estava insinuante sob a terra. Havia discos da coluna das paixões-frustrantes espalhados pelo chão. O femur daquela quase-apaorvação-no-trabalho-que-queria estava espetado sobre um amontoado de terra. Havia, ainda, recente, os miolos dos sonhos-da-infância se decompondo misturados à terra ainda viva, há pouco, revirada, o que denunciava o recente assassinato...
Caído ali, naquele poço fundo, deitado imóvel sob os escombros do que eu considerada a vida que tentara construir, finalmente, me despia: o choro soava livre, como uma carpideira bem paga eu me desmanchava em lágrimas. Finalmente, depois de tanto tempo, chorando os defuntos que eu mesmo enterrei. Sem poder me mover, por detrás da embaço das lágrimas que vertia, enxergava se desfazer toda uma vida, todas as vontades se misturavam em uma sopa de areia e se destruiam entre sonhos de infância, sonhos de consumo e a esperança. Pronto, deixando de lado o entusiasmo e o otimismo, caído ali, consegui enxergar e confessar a mim mesmo: Tudo que eu construí até aqui foi um castelo de areia...