Adelmo, o elefante indiano ou O drama da verruga pensante


Um elefante indiano, que para o dia do Festival do Elefante de Jaipur, Índia; estava muito bem decorado com joias, cores vibrantes e um jhool maravilhoso em sua sela, um dia, viajou no tempo pela consciência.
 Mas, invés de sua consciência se manifestar numa realidade mais adequada e mais propensa a lhe fornecer vivências e experiências impares, ou confrontá-lo com costumes de uma cultura muito diferente da sua, o que aconteceu de fato foi que o elefante, que se chamava Adelmo, na verdade, foi parar em uma realidade mais monótona. E porque eu disse monótona, eu não disse inútil.
Adelmo não abriu os olhos, porque nessa realidade em que encontrou-se todo o seu corpo tinha uma dinâmica diferente ao enxergar. Ou seja, de alguma maneira diferente com a que os humanos, ou mesmo os gatos, estão acostumados a enxergar, esse corpo, que Adelmo habitava, enxergava por toda a sua extensão. Era como se todo seu corpo fosse feito da matéria que os olhos são feitos.
IApós se perceber existindo, ali, naquele corpo. Adelmo tentou se mover, mas foi em vão. Então, Adelmo percebeu que seu corpo não tinha a possibilidade de se mover. Por isso, começou a utilizar a sua capacidade de enxergar por todo o corpo para entender onde estava e para que existia. Nesse momento, Adelmo ao menos agradeceu ao universo pela oportunidade de, ao menos, refletir sobre sua própria existência.

           Foi quando Adelmo viu algo firme e de forma, basicamente, cilíndrica vir em sua direção. Assustado, sua primeira reação foi tentar correr. Mas Adelmo não poderia correr. Pois já havia constatado que era, apenas, um corpo, aparentemente, inerte. A forma cilíndrica atingiu seu corpo esponjoso, pois nesse momento, o toque macio da forma cilíndrica lhe permitiu sentir que seu corpo era esponjoso! A forma cilíndrica o girou delicadamente. E se foi lentamente. Foi quando Adelmo percebeu que aquilo era um dedo humano. E foi quando olhou e percebeu que seu firmamento era a pele humana. Ele não podia enxergar para cima, nem muito ao longe das suas laterais. Portanto, não conseguia saber o sexo do humano ao qual estava preso. Tal como, também, não conseguia ver o rosto desse humano. Foi, só então, que Adelmo, o elefante indiano, finalmente, decidiu olhar para si mesmo. E, assim, aconteceu: Adelmo, viu quem era e descobriu onde estava.
A consciência do elefante estava habitando o corpo esponjoso de uma... verruga! Céus! Adelmo se viu inerte. E percebeu o quanto estava tolhido de tentar mudar o mundo. Ele se lembrou da sua função, na sua realidade, na Índia, e percebeu o abismo de utilidade que havia entre ser um renomado elefante decorado do Festival de Elefantes de Jaipur - o que de fato valorizava o seu cultura e a propagava para o mundo – e sua realidade como verruga, que até aquele momento, parecia-lhe tão inútil ao mundo.
Adelmo, então, começou a se questionar e criar lógicas a respeito da sua existência como verruga. Ele pensava que uma pinta poderia ser considerada ornamentaria num humano. Sardas são sempre ornamentarias. Pouca pessoas sofrem de transtornos obsessivos relacionados à própria pele ao ponto de desejarem retirar pintas ou sardas. Assim, em grande maioria, as pintas são ornamentais, no humano!
E ele continuou a explorar seus pensamentos e sua existência. Adelmo era, nesse momento, uma verruga existencialista. Em seu pensamento surgiu a função e o lugar-no-mundo das dermatites, sobre tudo as com formas vulcânicas, como as espinhas e furúnculos. Todas são inflamações da pele, que podem ser benéficas por estarem fazendo a manutenção do corpo humano ou, mesmo que maléficas, ao menos apresentam uma anormalidade no organismo. Pensou nas cicatrizes: essas podem ser feias ou bonitas, mas ao menos são formas que surgem na pele graças a um processo de sobrevivência. Mesmo que doloroso, se cicatrizou, ao menos significa que sobreviveu!
Mas uma verruga? Qualquer pesquisa rápida no Google permitiria Adelmo saber que, na verdade, uma verruga é inofensiva, na maioria das vezes, e pode ser curada em poucos meses. Além disso, nem sempre uma verruga incomoda um humano, algumas vezes, elas são marcas de estereótipo, como a verruga nas bruxas, por exemplo. E, alguns humanos, passam a vida ignorando verrugas que aparecem próximas ao seu nariz, mesmo que não as considere ornamentais.
Adelmo estava inerte, mas mesmo assim cansado. Seus pensamentos estavam a mil e sua cabeça doía. Era como se o mundo girasse ao seu redor e ele tinha, por alguns instantes, a sensação de um ataque de labirintite, mesmo que, como uma verruga, sequer tinha um labirinto para tal. Então, Adelmo pensou na sua inutilidade, no seu corpo esponjoso firmado numa pele humana e vagando tão minúsculo e insuficiente no universo infinito. Pensou que estaria sendo carregado a qualquer lugar sem a sua vontade. Percebeu, através de um pensamento assustador, que era melhor que voltasse para o TODO e tivesse seu pensamento preso no Éter, onde, mesmo que não fosse ele mesmo, ainda, era ele, mas com a utilidade de ser uma experiência adquirida pelo cosmo. O que afinal servia sua existência naquele momento? Ele sentia falta de ser um elefante decorado do Festival de Elefantes de Jaipur.
Os dias se passaram e Adelmo estava cada vez mais introvertido. Afinal, não tinha sequer uma pintinha próxima a ele para que ele pudesse puxar assunto, talvez, comentar sobre o calor. Assim, cada dia mais a depressão acometia a consciência de um Elefante decorado de Jaipur. Cada dia mais, ele se sentia apenas um pedaço de carne esponjosa a vagar inerte pela imensidão do universo.
Até que um dia, Adelmo sentiu um dedo lhe tocar outra vez. Então, sentiu que esse dedo não era tão macio quanto a primeira vez que foi tocado nessa realidade. Era uma textura plástica. Adelmo, perspicaz, então, percebeu: era o toque de uma luva de procedimento médico. Um frio lhe percorreu seu corpo. Era o prelúdio do que viria acontecer.
Um objeto frio encostou em seu corpo e tão logo Adelmo sentiu um filete de sangue escorrer por toda sua extensão esponjosa. Sábio como um elefante, ele soubera que naquele momento era retirado para sempre do firmamento que vivia, era um procedimento de remoção de verruga. E no seu mental choro derradeiro, Adelmo, que nunca mais retornou a sua consciência de elefante decorado do Festival de Elefantes de Jaipur, conseguiu apenas ter um pensamento: Uma verruga, embora banal, pode ser o sintoma silencioso de um HPV.